Testemunho de uma Estagiária

Família. Família é aquela que nos proporcionou a nossa existência, que nos criou, amou e educou. Família, segundo o dicionário, é um "conjunto de pessoas que vivem na mesma casa" ("família", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008- 2013). Assim, encontro-me aqui, hoje, a prestar o meu testemunho sobre uma grande família, que é a que vive sob o teto de uma grande casa, de uma grande instituição: o Jardim-Infantil Pestalozzi.

Começo por dizer que tive a sorte, a grande sorte de ter sido aceite, como estagiária, numa escola cujo nome não me era nada familiar... lembro-me do dia em que entrei por aquele grande portão verde e pensei "Isto não parece um colégio... isto parece uma casinha!". Quanto mais espaço descobria, menos escola me parecia. À medida que entrava, mais estranhava – "que casa tão bonita, que gente tão feliz" pensava eu. Entrei pela sala de aula, fui apresentada, juntamente com a minha colega e sentámo-nos, preparadas para assistir ao ensino do bê-á-bá. Poucos minutos depois, enquanto a professora conversava (sim, conversava!) com os alunos, uma criança levantou-se e foi abraçá-la. Momento de pausa – "o que é que está a acontecer?", "será que tem problemas?", "aconteceu alguma coisa?" dizia o tico ao teco, na minha cabeça. A professora retribuiu o abraço, ofereceu-lhe um beijo, pediu ao aluno que se sentasse e tal aconteceu. Não consigo tirar esta imagem da minha cabeça, nunca tinha visto nada igual na minha vida – uma professora, que conversa com os alunos e troca carinhos? Não queria acreditar, não me parecia normal, não me parecia que fosse algo que funcionasse dentro de uma sala de aula de 1.º Ciclo do Ensino Básico. Com o passar do tempo a dúvida, já instalada, começou a propagar-se por todo o meu saber e procurei comprovar o método, durante as semanas de intervenção – foi a melhor sensação de sempre. Uma sensação de felicidade que se apodera de nós quando nos encontramos a explicar que "Mar" é o primeiro bocadinho de "Margarida" e, de seguida, misteriosamente, somos sugados para um abraço que é tão pequeno e tão grandiosamente quente ao mesmo tempo.

Posso dizer, então, que tive, também, a sorte de ter sido supervisionada por uma grande, enorme, gigante professora. Cerca de 1,60m de carinho e um sorriso, sempre estampado, que nos alcança e nos abraça. Se eu já sabia qual era o meu propósito na escolha desta profissão de docente, agora eu tenho a certeza: ser professor é ter nas mãos a possibilidade de mudar o mundo. Ser professor é ter a oportunidade de agarrar o mundo e moldá-lo, com todo o dom que as nossas mãos possuírem. Tenho a certeza que a minha querida professora Pestalozziana está a mudar o mundo, porque as crianças que por ela passam, ficam a conhecer o verdadeiro valor de aprender, porque aprender é um direito e nós, professores e futuros professores, temos, também, o direito – sim, o direito! – de ensinar. Todos temos um papel único. O mundo é de todos e para todos e podemos ser tudo o que quisermos nele, porque "somos capazes" – aprendi eu nesta instituição.

No Pestalozzi eu ensinei, fui ensinada e saí de lá encantada! O desejo de voltar não cabe em mim – o desejo de ensinar, que nasceu comigo, transformou-se no desejo de ensinar "à moda do Pestalozzi".

Guardo na memória todas as relações que criei e a forma como fui acolhida por uma comunidade escolar esplêndida, que teve a capacidade de nos fazer sentir em casa desde o início da nossa presença na escola. Termino o meu estágio de coração cheio e de alma pejada e sei, com toda a certeza, que nunca vou esquecer o Jardim-Infantil Pestalozzi: uma grande casa amarela onde vive uma família feliz da qual eu tive a grande sorte de poder ter feito parte.