Que nota dás à tua infância?

Um artigo de CRISTINA L. MARTINS HALPERN in “Público” a 22/03/2015

“A avaliação está intricada no ensino, mas esta relação íntima em nada se confunde com o minicircuito a que tudo se quer reduzir – aluno – exame – nota – ranking – sucesso na vida.”

Consulte o artigo completo em http://www.publico.pt/sociedade/noticia/que-nota-das-a-tua-infancia-1689814?page=-1

 

Junho de 1967

Era um dia de verão que podia ser o primeiro daquela estação. O calor que se fazia sentir deixava adivinhar a proximidade das sempre tão desejadas férias grandes. O ambiente no jardim infantil era já como se de festa: com mais tempo de recreio que de sala. Eram concedidas autorizações aos mais novos para poderem brincar no espaço habitualmente reservado aos mais crescidos. Tão crescidos que já estavam na primária, o que me fazia olhar para eles como se fossem uma espécie de semideuses.

Aquele espaço de recreio tinha para mim um valor muito especial. As ameixeiras, aqueles baloiços grandes o trapézio enorme que não me atrevia a tentar alcançar. O cão de guarda que preguiçava na sua casota construída no vão das escadaria. O espaço onde ficava estacionada a carrinha de marca e matrícula OM, para a qual éramos chamados ao fim do dia e que nos levava as nossas casas com a condução cuidada do Sr. Gordinho. Sempre simpático e brincalhão, parecia não se importar que nos enganássemos oferecendo-lhe um 'R' suplementar ao seu nome, por razões da sua silhueta.

Naquele lugar de estacionamento existiam também pequenas capoeiras de onde se ouviam cacarejares que contribuíam para a harmonia daquele nosso primeiro paraíso.

Para suavizar temperaturas e aumentar as alegrias de fim de ano letivo, as professoras decidiram pegar numa mangueira com a qual nos borrifaram entre gritos e correrias felizes.

Recordo a mana mais velha em corridas alegres e saltos fantásticos desde a zona mais alta até à zona que servia de campo de futebol. Uma espécie de corredor que ia desde o portão de entrada, até aquele recanto com bancos, por baixo da escadaria que dava acesso ao primeiro andar da casa principal.

Os seus carrapitos e o vestido de pequenas florzinhas faziam-me achá-la a Anita dos seus livros lá de casa. Lembro, com uma nitidez perpétua, o seu rosto (se fizesse hoje carrapitos ficaria igual com certeza).

Mais tarde, os mais novos (grupo no qual me incluía) regressaram a zona da infantil para lanches de refrescos e bolos.

Quando acabámos, subimos os poucos degraus junto ao lavatório que davam acesso a secretaria e, evitando esta, virámos à direita, passando pela velha cozinha do piso térreo em direção a um pequeno corredor em 'L'. Este dava, por sua vez, acesso a uma casa de banho, a uma arrecadação e a um pequeno compartimento onde deixavam os nossos casacos e cestos. Ainda à porta para a sala da pré-primária em frente e à direita à da sala da infantil, onde entrámos para nos dedicarmos às nossas atividades o resto da tarde.

Entre jogos e peças de teatro, estava eu sentado no chão encostado à parede e ladeado pelos meus amigos, quando sinto duas pessoas crescidas aproximarem-se de mim. Ao olhar para cima reparei serem a minha mãe e a minha educadora.

Num pulo, pus-me de pé e, saltando para o seu colo, abracei a responsável pela minha existência. Passadas as saudações e inerentes ternuras, fui confrontado com aquela pergunta colocada em harmonias ensaiadas:

'António, quando recomeçar a escola, quer ir para a sala da pré-primária ou prefere ficar mais um ano aqui na infantil?'

Em segundos varri as memórias que tinha da sala que propunham passar a ser a minha. Os tempos em que era o espaço do meu irmão mais velho.

Num canto, um balcão com uma balança e uma caixa registadora, faziam a mercearia onde se podia adquirir os produtos necessários para cozinhar, por exemplo, um bolo. No canto ao lado era simulada uma pequena cozinha na qual se produziam as receitas previamente decididas pela educadora.

A voz da minha mãe trouxe-me de volta, 'Preferes a pré-primária ou ficar mais um ano aqui na infantil, António?'

Foi sem dúvida a primeira grande decisão da minha vida,

'Quero ficar nesta sala.',

respondi eu ainda entre hesitações de crescimentos e amigos que ficavam.

Feitas hoje as contas às arrecuas, passava eu na altura pelos quatro anos da minha vida.

Recordo, ou julgo recordar, episódios mais longínquos. Contudo, sem certezas de terem sido experiências memorizadas por si mesmo ou através de relatos feitos a posteriori em explicações de fotografias.

Sendo esta a recordação mais remota que tenho de mim, é provida duma clareza quase impossível que não consigo ter de alguns episódios do dia de hoje.

Miguel Cerveira do Amaral

(antigo aluno do Jardim Infantil Pestalozzi)